Se o mundo fosse cego... de Cristiana Oliveira Gomes.


















Se o mundo fosse cego, provavelmente, seria colorido... o mundo. Continuaria com as suas cores... o mundo. Nós é que o veríamos mais escuro. Talvez sem cor. Ou talvez não. Talvez uns imaginassem tudo. Outros, quase todos, limitaram-se a não ver nada.

Se o mundo fosse cego desfrutaria dos cinco sentidos. Olfato, tato, audição, paladar, visão. Se eu fosse cega...cheiraria o mais intenso dos perfumes, sentiria o gosto da água, tocava a mais leve das penas e ouviria a mais breve melodia daquele pássaro ao amanhecer do dia.

Se o mundo fosse cego não veria o outro para sentir ódio, não veria o outro para sentir inveja, não veria o outro para desprezar, não veria o outro para manipular, não veria o outro, não veria, não veria.

Se o mundo fosse cego seria mais esforçado. Esforçaria-se para sentir, para ouvir, para conhecer, para não se perder.

Se o mundo fosse cego não acenderia a lâmpada à noite inutilmente. Limitaria-se a percorrer o caminho que já conhece mas que teimamos em não arriscar.

Se o mundo fosse cego arriscaria, sempre na iminência de algo poder correr mal, mas arriscaria. Não haveria outra solução.

Se o mundo fosse cego não escreveria prosa, mas sim poesia; não olhava o mar, mas sim o oceano; claramente não via, mas via claro se preciso fosse.

Se o mundo fosse cego, ai se o mundo cego!


Cristiana Oliveira Gomes.

O que eu seria capaz de fazer por Amor? de Helena Ferreira.


Atendendo aos conhecimentos de Charlotte, o que eu faria era munir-me do máximo de "ferramentas" e preparar-me a mim e à minha filha para a passagem. Alimentaria a minha alma, e aproveitava para viver ao máximo tudo de bom, que o tempo que restava nos permitisse. Iria eu apoiá-la e confortá-la sob qualquer condição. Estaria eu incondicionalmente disponível para a minha filha, tudo o resto ficaria para depois, ela é que me teria a 100%.




Referência: Passatempo "Um Portal para a Escuridão".

Dança-me! de Dina Matias



Dança comigo ao luar
Enlaça a minha cintura
Assim, com muita doçura
Faz o meu corpo deslizar

Num rodopio constante
Aperta-me com firmeza
Deixa que eu tenha a certeza
De ser tua, nesse instante!

Dança, numa dança infinda
Tu e eu, sensualidade
Noite, paixão, liberdade
Abraça-me…É cedo ainda.



Dança, mata este desejo
Quero em teus braços bailar
Cala-me a boca com um beijo
Dança comigo, ao luar!


Dina Matias

Reflexão. de Anónimo.



"Observo o meu reflexo com olhos aguados e inexpressivos. É um terrível clichê dizer isto, mas não o reconheço. É como se não pertencesse a mim, nem a este lugar, nem a este tempo.

E no entanto, faz todo o sentido que pertença. Os olhos nadam em pálpebras flácidas e olheiras profundas, as maçãs do rosto salientes como facas, as bochechas encovadas, como se as puxassem para dentro. Indícios de suor na testa, manchas nos lábios onde o filtro de uma infinidade de cigarros se encaixou.

Consigo ver ali, na posição daquelas sobrancelhas excessivamente grandes, todo um medo primordial. Mas é no brilho daqueles olhos castanhos que a dúvida se mostra, corrosiva, dolorosa, um presságio de longos dias esgotados na inércia do pânico. São pequenas fendas, pequenas seteiras, aberturas minúsculas para toda esta grande confusão.

Sei que são truques de ilusionismo. Pergunto-me, mesmo assim, se não devia sentar-me e conversar um pouco com este reflexo. Acho que começaria por perguntar: "Então, diz-me, como foi que viemos parar aqui?". Depois, encostava-me na cadeira e ouvia pacientemente.

Mas enfim, isso seria impensável. Prefiro vaguear por aí, sem rumo, sem plano, sem expectativas, do que perguntar a um total estranho sobre mim."


Anónimo.

Madrugada Azul, de Dina Matias
















Quero lá saber!
Quero lá saber quem fui
O que fiz, o que vivi!
Se fui rosa, se fui espinho
Se fui água, se fui vinho
Que me importa, se sofri!?

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Quero lá saber da vida!
Dum fado escrito, sem fim...
Tão negro, desafinado
Que até chega a ser pecado
Mas, que me importa isso, a mim!?

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Quero lá saber de glórias
De torturas, de prisões!
Se me cerraram a boca
Se me chamaram de louca
Que importam as emoções!?

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Quero lá saber de mim!
Se fico, ou se me vou!
Se sou plebeia, ou rainha
Se fui tua, se sou minha
Que importa, se alguém me amou!?

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Quero lá saber quem sou!
Donde venho, ou onde vou...
Se esta sina, este meu fado
Se encontra em mim tatuado
Quero lá saber quem sou!?

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Dina Matias

Marca Página de Tayline Ange




Rompi a brecha que existia entre nosso abraço

Gosto de te sentir na pele

Reconhecer em ti o cheiro que há tempos só sentia naquele livro

Nas páginas latentes e flamejantes

Nas palavras vibrantes e quentes

Onde guardaste tuas digitais cuidadosamente como um mapa.

Percorri o espaço entre um suspiro e outro

Já fui mais suave, precisei da fúria pra poder te alcançar

Eu te busco e te guardo, marco o texto, sublinho

Como se fosse esquecer os versos que fizemos em nossos travesseiros

Mas não esqueço em noite alguma

E são eles que me acordam como despertadores desafinados logo que o sol aponta

É o último capítulo, amor

E eu te dispo de toda resistência.





Tayline Angel

Debaixo d'água, de Hugo Ricardo.



Corro por estas quatro paredes que não me levam a lado nenhum, excepto ao pesado silêncio do mar, cujas ondas me engolem. Aqui não passo de um fantasma, espectro de uma rosa, sombra de uma sanidade senil.

Deixa que a maré me lavre a alma e arraste consigo incertezas de uma altura que perdemos no tempo. Vira-me as costas e deixa-me ficar no mar, onde não te atreverás a procurar-me. Pois o mar que eu tanto conheço está repleto de caminhos incertos. Caminhos esses que apenas eu consigo percorrer e nos quais apenas eu me posso perder.

Enquanto me aprisiono na minha nebulosa omnisciência, vou respirando debaixo de água, onde deixarei o teu nome marcado para nunca mais o esquecer.


Hugo Ricardo

SONHEI…, de Eugénio Mourão.


















Sonhei …
Que a vida era bonita,
Que o mundo tinha sido feito a sorrir,
E as lágrimas eram a água doce,
Que descia dos montes.

Sonhei…
Que todos os sonhos podiam ser,
Que eram a coisa mais simples do mundo,
Bastava fechar os olhos e desejar,
E que ninguém nos ralhava por isso.

Sonhei …
Que os homens inventaram a saudade,
Para não esquecerem,
E que a dor só aparecia quando caíamos,
E que passava com o tempo.

Sonhei …
Que se podia fixar o sol sem chorar,
E que o céu era já ali em cima,
E que quando se olhava uma estrela,
Se podia ficar com ela.

Sonhei …
Que as palavras a sonhar falavam alto ,
E que chamavam por mim,
E quando acordava, havia alguém
A ler o meu poema.

Sonhei …
Que eras um sonho lindo,
E sonhava contigo até não aguentar mais,
E quando ficava cansado, adormecia,
Para voltar a sonhar-te.

Sonhei…
Que tínhamos o mesmo sonho,
E que era mesmo de verdade.



Eugénio Mourão.

Apenas café, Bruno Alves da Silva.















Ah! Aquele gole delicioso de café que me incendia o corpo e a alma, assim como o seu beijo, às vezes amargo, mas o meu café ajustava isso com o seu delicado, doce e toque de amor. Corri tanto atrás de você, criei tantas rimas e só agora que ele te largou, tu me procuraste. Que desperdício!

Até dói te ignorar, censurar-me em um típico “oi”, mas não cometerei os erros do passado novamente, apenas tomarei o meu café, olharei pela minha janela, suspirarei profundamente e por fim esquecerei.


Bruno Alves da Silva

Homenagem a Ela, de Lorrayne Johanson.





















Ah, moça calma e singela,

Por que se vela

Tão secreta

Nesta ilha vasta e bela

E não me revela

O que escondes além da procela?



[Lorrayne Johanson – Garrafinha]

Rotina, de Helena Rita.

Começa a ser rotina não te ver com os mesmos olhos… Num passado recente, podíamos até andar aos encontrões que não sentia a tua presença no espaço. Agora sinto a tua respiração a longas distâncias. É como se tivesse entrado em metamorfose, o meu estômago encheu-se de borboletas, recebi o seu olfato só para seguir o teu perfume que me atordoa; deixei a escuridão para encher o meu pequeno coração de algo, como se chama? Sim, amor.

Ainda não sei como lidar com isto, é demasiado fresco. As pernas fraquejam, tenho pequenos ataques cardíacos, o sangue percorre-me com tal lentidão que me sinto a perder os sentidos. A tua acelerada respiração complementa o meu dia-à-dia; não sei como, mas conseguiste arranjar espaço na caixinha que me mantém viva e, que à tua passagem permanece junto à boca. Mas sabes que significa? É um sinal de que quer exprimir os sentimentos existentes nela e apreendidos a sete chaves por mim. Eu continuo a mesma. Nada muda, a não ser este sentimento reprimido e oprimido, mas sensacional.

Por mais estranho que pareça, sejam dez ou duzentos metros que nos separam, o teu sorriso é contagiante; e o teu bom dia, por mais insignificante que seja para ti, consegue deixar-me a sorrir durante longas e demoradas horas. Permaneces vinte e quatro sobre vinte e quatro horas na minha imaginação. Em estilo de confidência, nos meus sonhos já somos casados e temos uma filha linda. Sabes o quanto esse mundo, a dois passos do real contribui para a minha felicidade? Pois, mas é a ideia de que todos os sonhos se podem tornar realidade, o que me faz andar de cabeça erguida.

Espero que um dia me compreendas.

Pertences-me, desconhecido.


Helena Rita

Calor de Chuva de Mara Vanessa Torres



Calor de Chuva



Partículas de poeira dançam e rodopiam

Acima dos homens e de uma cidade que grita

Os pequenos fragmentos de poeira são embalados

Pelo sibilar do vento, pelas gotas de chuva

Gotas de um céu que ri, chora, ama, fere

Na terra dos homens, o calor que oprime

O mormaço que abafa, esconde e sopra para longe

As partículas de poeira que circulam e rodopiam

Voam e anunciam

Que nesse calor de chuva

São as nossas sensações

Os nossos corações

As nossas emoções

Os nossos sentidos

E nada mais para usar, ser ou mostrar

Nesse calor de chuva

As partículas de poeira dançam como borboletas

Flutuando no espaço

De uma cidade vazia e cheia



De calor e chuva.

                                                                           Mara Vanessa Torres


Pintemos o amor, de Túlio Santos







O que há em mim é uma tristeza desbotada, que insiste em tingir
de todos os tons possíveis, esse meu caos de solidão e tristeza
que só evoca você.

A hora de amar é agora.
Preparei todas as aguarelas possíveis
e já estou com o pincel na mão.
Pincelar amor, pode ser uma excelente distração, ou cura.



Túlio Santos

A Escrita, Marta Garcia

















A escrita é o meu instrumento,
Sem que eu o possa controlar,
Epifania do momento,
As palavras são o meu pensar.

Penso, logo escrevo,
Não consigo parar,
Letras da minha alma,
Não é nenhum segredo.

É um frenesim e uma calma,
Que corre nas minhas veias,
Louco e ponderado,
Sem limites e inspirado,
Numa espiral estonteante,
Até nenhum pensamento restar.

Mas aí durmo,
E penso novamente,
E recomeça de novo.
Este ciclo sem terminar.



Marta Garcia

Estas saudades de mim, de Maria Laranja



Qualquer dia acabo com isto das saudades, ficam lá bem guardadinhas no sótão, dentro daquela caixa de cartão que nunca ninguém abre, que é para ver se fica mais fácil viver estes dias que gelam a palma das mãos, a ponta dos dedos e parte do coração. Qualquer dia acabo com isto das saudades, ponho-as a fazer ruas onde as pessoas vão passar e sentir uma coisa estranha, mas não vão saber o que é porque calçadas de emoções só existem na minha cabeça. Qualquer dia acabo com isto das saudades e transformo-as em água a correr para longe, rio de angústias que vá morrer noutra foz. Quando esse dia chegar vai ser bom porque passa a ser possível lembrar, verbo que faz aparecer logo pronto e rápido aquele buraco no meio do peito que é o lugar onde as saudades se instalaram, e assim que podem abrem a porta e deixam entrar frio. Quando este dia chegar vou poder abrir a gaveta sem medo dos olhares dos dias passados, do cheiro do jardim de mil flores, tomateiros e alfaces. Um dia acabo com isto das saudades e vingo-me no regresso à minha rua de toda a vida e à minha casa cheia de mim e de nós, que vou desatar todos, um por um, desde os dias da escola da dona rosinha até ao muro de pedra sobre o fio de água a que pomposamente chamávamos ribeiro. Um dia zango-me mesmo a sério e volto a casa para cheirar as paredes e dar mais um passo no chão gasto, olhar e ver sem medo que a maior parte de mim ainda ali está. Volto para somar sentires aos milhões que já senti.

Qualquer dia acabo com isto das saudades, mas um amigo disse-me para deixar estar, que é isso que nos faz gente. Será?





Maria Laranja

Nascer do Sol na minha Aldeia, de Maria Santos.



















Quanto mais subo, mais a estrada fica vazia,
Quero chegar antes do romper do dia,
O caminho cada vez mais estreito e ainda escuro,
Oscila o pensamento entre claro e obscuro.

Piso pedras, folhas e arbustos,
Escorrego em troncos descascados de sobreiros robustos,
Sinto a carícia de um ramo selvagem,
Chego ao fim da viagem.

No cimo da montanha,
Oiço um silêncio pulsar,
O que sinto não é uma ausência,
Mas uma presença,
A terra a respirar.

Uma energia, um movimento,
Algo de muito lento,
Quase violento,
Prestes a desmoronar.

Não digas nada, sente
O sol ergue-se ali, à tua frente
Astro gigantesco em combustão
Átomo que escapou do universo
E que a minha mão
Transformou em verso.


Maria Santos, Luxemburgo
Julho 2014

Enredo da Noite, de Gonçalo Carrera



É sexta-feira à noite, caminho compassadamente pelas ruas da cidade e, elevado pelo impulso do momento, mergulho de cabeça no mar de pensamentos, deixo-me arrastar pela corrente de amargos e doces momentos que se comportam como marés, o fado universal. Oiço ao fundo uma melodia, qual canto de sereia, fundindo-se com os meus pensamentos, que me vai fazendo emergir à superfície do sólido e tangível. A canção propaga-se com notas soltas e acordes, despertando em mim felicidade. Oiço uma voz, felina e delicada que como um íman me atrai. Navego por aquelas ondas sonoras, orientado pelo som estéreo, até chegar ao meu destino. Estou frente a frente à dona daquela voz sublime, tocando guitarra. Deixo-me envolver naquele momento mágico, estou dentro da música e ela em mim.

Findo o concerto dirijo-me àquela musa inspiradora e abordando-a gentilmente pergunto-lhe quando e onde a poderia ouvir de novo.


Gonçalo Carrera

A Mão Esquerda, de Francisco de Sousa Vinagre



Dei curtos passos pela Rua do Quelhas, não conseguia respirar. Parei e pousei os sacos. Os raios de Sol assombravam a minha cara e senti-me perto do Inferno, apeteceu-me morrer. Pousei os sacos. A dor que vinha das minhas mãos obrigava-me a pensar em como estava tão velha. Senti picadas na coluna. Pousei os sacos. Achei que me estavam a espetar agulhas nas pontas dos dedos, as minhas mãos ardiam.

Cumprimentei o Sr. Abílio, lembrei-me da mulher dele. Apeteceu-me morrer, as minhas mãos ardiam. Inspirei. Voltei a inspirar e pensei no meu Julinho. Olhei para as mãos, sentia-as a arder. Reparei nas linhas da vida que percorriam a minha palma da mão esquerda. Fixei-me na aliança. Tentei respirar, senti o meu peito apertado contra uma parede. Voltei a agarrar nos sacos, um a um. Eram mais pesados que os meus netos, senti que levava tijolos para casa. As minhas mãos não queriam fechar, voltaram a arder. Caminhei mais alguns metros. Olhei para baixo, fixei-me nos espaços vazios existentes na calçada, quis morrer. Pensei no meu Julinho.

Reparei nos meus pés, estava de sandálias. Eram feios, as unhas estavam da cor do carvão. Os meus pulmões, de repente, diziam que não aguentavam mais. Parei. Pensei no meu Julinho, olhei em frente. Inspirei. Pousei os sacos. As minhas mãos ardiam, quis morrer.



O meu prédio estava já ali, o número sete. Tentei regularizar a respiração, continuei a sentir facas espetadas no peito. Olhei para os sacos, apeteceu-me pontapeá-los. Lembrei-me dos ovos, não o fiz. Olhei para a aliança, inspirei. Parei. Inspirei outra vez, o ar parecia-me coberto de vidros que me atravessavam a garganta. Quis morrer. Voltei a inspirar. Peguei nos três sacos, dois na mão direita e um na mão esquerda. As minhas mãos ardiam, pareciam queimadas. Caminhei. Pensei no meu Julinho.

Sabia que o prédio estava mais perto, mas não o senti. O meu peito inflamava como um incêndio, as mãos ardiam. Parei.

Larguei os sacos em frente ao meu prédio, lembrei-me dos ovos. Tirei as chaves do bolso, o barulho do metal fez-me sorrir. Sorri. Abri a porta do prédio, as escadas olharam-me com um olhar ameaçador. Quis morrer. As mãos ardiam. O meu peito continuava apertado. Pensei no meu Julinho.

Sabia que me esperavam vinte e quatro degraus pela frente, um terço da minha idade. Já tinha enfrentado aqueles pedaços de madeira milhares de vezes, mas aquele dia parecia diferente. Parei. Pousei os sacos, olhei para a aliança. As mãos não queriam fechar, viam-se as veias. Inspirei, agarrei nos carregados pedaços de plástico e pus o meu pé esquerdo no primeiro degrau. Olhei para baixo, tentei-me apoiar no corrimão de metal que percorria a escada. Senti-me velha. Quis morrer. Pensei no meu Julinho. Pus o pé direito, agarrei nos sacos, apoiei-me no corrimão, olhei para a aliança, e subi. Degrau a degrau, subi. Parei. Pousei os sacos. As mãos ardiam, estavam em sangue. Cuspi para as mãos, passei a minha saliva pelas feridas. Tentei respirar, o meu peito queimava, as facas não queriam sair. Apoiei-me no corrimão, queria respirar. Inspirei. Parei. Olhei para os sacos, vi os ovos. Toquei no corrimão com a mão esquerda, vi a aliança. Senti os relevos do metal, fiquei com um odor estranho nas mãos, lembrei-me das feridas. Parei. Gostei do cheiro a metal, lembrei-me do meu Julinho. O número de degraus daquela escada correspondia a um terço da minha idade, estava velha. Acho que quis morrer. Olhei para os sacos, faltava um andar. Agarrei nos sacos, dois na mão esquerda e um na mão direita. Pus o pé esquerdo à frente, apoiei-me no corrimão. Subi. Inspirei. Olhei para a aliança. Pensei no meu Julinho. As mãos ardiam. As unhas, cobertas de terra, continuavam com agulhas espetadas. Subi os degraus. Parei.



A minha fechadura estava amarelada, tinha perdido a cor. A porta já não era castanha. Faltavam bocados de madeira, o que lhe dava um novo aspecto. Tirei as chaves do bolso, olhei para os meus pés. Estavam com feridas. O barulho das chaves fez-me sorrir. Parei. A minha respiração estava melhor, os pulmões começavam-me a perdoar. As mãos ardiam.



Abri a porta, limpei os pés. Peguei nos sacos. Parei. O hall de entrada lembrou-me do meu Julinho. Pensei no meu Julinho, quis morrer. Pousei os sacos na cozinha, a loiça estava por lavar. As mãos continuavam a arder, passei-as por água. Saí da cozinha, passei pelo hall de entrada outra vez. Olhei para o quadro que lá tinha pendurado. JL era a assinatura. Parei, toquei no quadro. Senti-o, cheirei-o. Acho que me cheirou a tinta fresca, quis morrer. Inspirei. Fui para a sala. Parei. Olhei para o sofá, estava vazio, o meu Julinho já lá não estava. O silêncio começou-me a perturbar. Não conseguia ouvir o rádio ligado, não percebi porquê. A mesa não tinha um único jornal desportivo. Olhei para o sofá, estava vazio. Sentei-me, pensei no meu Julinho. Acho que quis morrer. As mãos ardiam, juntei-as. Apertei-as com a força equivalente a um comboio de mercadorias. Tive dor, não percebi de onde. As mãos ardiam, os pulmões reclamavam, a respiração custava. As costas ardiam, as pernas estavam cansadas. Os pés tinham feridas, a cabeça estava suada. Senti-me velha, quis morrer. Pensei no meu Julinho, olhei para a minha mão esquerda à procura da aliança, ainda lá estava. Fechei os olhos, adormeci.


Francisco de Sousa Vinagre

Ontem conheci-te, de Carolina Costa


Hoje és meu!
Meu, isto é, foste-te tornando meu pelo caminho, não como um bem adquirido, mas sim como um coração unificado, que de igual modo dividido em dois.

Entre o ontem e o hoje, ganhaste o meu coração, conquistaste-o todos os dias de maneira a acender sempre mais a chama que curava o meu pequeno coração. Ontem não era de ninguém a não ser meu, hoje sou de quatro pessoas, tua, tua, tua e tua. Sou de todos os lados que o teu corpo tem, sou tua do tamanho da minha alma, sou tua fisicamente e psicologicamente. Sou inteiramente tua. E por muito que tropece, o ontem mostrou ao meu hoje, que continuarei a ser sempre tua. Hoje tenho uma alma gémea, ontem chorava por ter desacreditado no amor sincero. Isto quer dizer, querido ontem, que não aprendi nada contigo. Só desaprendi. Foste tu, meu hoje, que me deste a maior lição, a lição de amar ao próximo, isto é, amar sem desaproveitar. Aproveitar todos os dias e todas as horas, aproveitar aquilo de bom que te é dado.

Não choro mais por ti ontem, descobri que não vales a pena dentro desta viagem. Querido ontem, já lá vão 9 meses e 21 dias que não tenho pensado em ti, tenho um hoje repleto de alegria, amor e carinho. Tenho um hoje pelo qual sei que vale a pena lutar.

Querido hoje, obrigada por teres chegado e me teres abraçado debaixo de ti, obrigada meu hoje, por me teres acolhido com todo o amor que te é possível dar. Obrigada, meu hoje, por me fazeres esquecer aquele antigo querido passado, e me mostrares que é a ti que quero, todos os dias, o mesmo hoje. Agora, momentaneamente, hoje, nesta hora e neste minuto, nas horas seguintes. Amanhã, de manhã, à tarde e à noite. No futuro, para sempre. 

Meu querido e abençoado hoje.


Carolina Costa

Uma carta com amor, de Anónima.

Meu querido e primeiro amor,

Finalmente ganhei coragem. Coragem para fazer o que há muito temo anseio. Preciso ser completamente honesta. E talvez pela primeira vez deixar fluir de dentro de mim tudo o que tenho cá dentro. E é com esta finalidade que te escrevo. Sim. Escrevo-te esta carta assim como faziam os enamorados nos bons e velhos tempos de romantismo. Sempre achei que uma carta é algo belo e delicado, algo construído com afeto e ternura. Não concordas?


Lembro-me – como se fosse hoje – a primeira vez que te vi. Apaixonei-me por ti no instante em que os meus olhos envergonhados e esquivos se cruzaram com o brilho encantador que irradiava desse teu olhar simples, meigo e cativante. Estavas em pé ao lado do teu pai e nas mãos seguravas a tua revista, onde tinhas colorido, com marcador azul, algumas partes de umas caricaturas. Sentada, poucos metros em frente a ti, sorria enquanto contemplava a tua arte.


Pouco depois soube o teu nome. E, a partir daí, tudo o que ocupava o meu pensamento eras tu. E assim foi durante muito tempo. À medida que te conhecia melhor aprendia mais acerca de ti, mais te respeitava e te admirava. Ouvi dizer que só amamos quem admiramos e eu admirava-te (e admiro) imenso. Jovem altruísta, sincero, humilde, amigo, genuíno...


Admirava-te à distância e amava-te na sombra do meu pensamento e no espaço mais secreto do meu coração. Nunca tive coragem para to dizer. Mas pensando bem, nunca tive coragem de o admitir, por vezes até para mim própria. Isto porque, em grande parte, sempre pensei que não te merecia e que nunca sequer te passei pelo pensamento.


Os meses passaram e tu partis-te. Mudas-te de cidade. deixei de te ver, de te cumprimentar. De te ver e ter tão perto de mim (embora sempre estivesses tu longe). O ambiente ficou simplesmente mais pobre, mais escuro. Faltavas tu. Sempre tu para trazer a vida e a luz de volta. Em cada cara conhecida procurei-te sem te encontrar. Foste em busca de algo maior. Fazer algo melhor. Aí admirei-te ainda mais. Desejei ser mais como tu, deixar de lado a minha fraqueza, o meu medo, e seguir o teu exemplo. Ainda estou a trabalhar nisso.


Meses após a tua partida vi-te de novo, a poucos metros de mim. foi tão repentino. Vi-te à saída do autocarro. Acho que não me viste (como sempre). Procurei-te toda a tarde, mas sem sucesso algum. Esperei por ti, no final da tarde, ao pé do autocarro, mas disseram que foste com uns amigos de carro. E então, naquele mesmo momento percebi: da mesma forma que te amei tempos atrás, deixei-te partir nesse momento. Percebi que finalmente me libertei de ti. Nunca te esquecerei. Mas agora o meu amor é diferente. Amo-te como um amigo querido, como um exemplo de vida inspirador. Como alguém que me ensinou muito sobre prioridades e objetivos.

Obrigada por tudo o que me deste e ensinaste mesmo sem saberes.


Com amor,

R.

Deve Ser Isto, Sónia Valério Leal



O que faria sem a tua loucura,
Sem o teu desafio?

O que faria sem uma mapa nas mãos e um sonho no coração,
sem a nossa música?

O que faria eu sem ti ? Talvez vivesse, mas não existisse.
Talvez passasse por todas as músicas e todos os recantos, mas de nada serviria sem o teu sorriso.

Deve ser isto que se chama Amor.
Deve ser isto que faz com que as pessoas escrevam poemas, músicas e se sintam eternas.


Deve ser isto o que faz o universo girar.
Deve ser isto a única coisa que realmente importa.




Sónia Valério Leal

Fu(in)gir, de Teresa Barros


Fujo do mundo, não por medo de ele ver como sou, mas talvez com receio de ver como ele é. As coisas alteraram-se e eu fiquei parada no tempo à espera que me acordassem do sono da passividade. Adormecida no leito da vida não vivida, apenas sonhava com o que se pudesse passar fora da redoma claustrofóbica em que me imiscuía. Apareceste tu e, pelas brechas da redoma, entrava a luz do teu sorriso que as foi alargando, até eu perceber a luminosidade que existia fora de mim. Entendi que afinal eu (sobre)vivia e lutava para não ficar sem vida. Inconscientemente, procurava alimento que me desse forças para rebentar com as algemas que me prendiam a algo que me condicionava e me sufocava mortalmente.

Deixei de ser eu. Quem era? Ao vislumbrar o teu sorriso, ao fixar o teu olhar... perdi-me... para voltar a encontrar-me...

Tenho medo... Que a ilusão seja novamente uma sereia que me tente para o mar tenebroso das quimeras... Que o querer assim tanto seja uma armadilha onde a desilusão esteja mais uma vez à minha espera...

Às vezes encontro-me... e penso em como seria... Desenho paisagens, cenas de um futuro quase presente e tudo é idilicamente traçado no quadro do sentimento mais puro e sincero... Mas depois... Desço suavemente da nuvem e desencontro-me na superfície terrestre onde a veracidade do mundo real afasta qualquer quimera, ou sonho, ou ilusão, ou desejo ...

Fujo do mundo com medo de o viver... Finjo perante o mundo com medo de me perder..."




Teresa Barros

Relógio de Marisa Santos Silva

O relógio parou. Já não bate os segundos ao ritmo dos minutos, nem esses minutos acompanham as horas planeadas. 
O tempo continua apesar de tudo. Programado além das vinte e quatro horas conhecidas.
Como se o tempo pudesse aumentar ou diminuir consoante a nossa vontade.

Hoje o meu dia tem trezentas horas, sim, tem mesmo! Porque quero ter tempo para tudo e sou eu quem decide isso. Amanhã espero que tenha apenas seis horas, o tempo suficiente para dormir e não o viver acordada. Depois de amanhã logo se vê. A partir do momento que o relógio para, somos nós quem damos corda aos ponteiros. Ora mais rápidos, ora mais lentos... E há quem o queira para sempre parado. 

Tic-tac! Tic-Tac!

Ups...! Afinal ao relógio apenas precisava de mudar a pilha. E parece que o tempo continua igual, com doze horas por cima de outras doze. E não há forma de mudar isso, desenganem-se. Quem comanda o tempo não somos nós. E quando pensamos que podemos tirar o som ao relógio, é a vida quem nos tira o som a nós.

O relógio que continue a funcionar.

Marisa Santos Silva

TURBILHÃO de Elaine Elesbão



TURBILHÃO



Eu queria saber quem sou,

perdida em meio a tantas palavras,

e são tantas que não cabem dentro de mim...

Tantas que me abstraio daquela que um dia fui,

sem saber quem agora me torno.



Falar já não faz sentido;

pensar me tira o sono;

sonhar não me traz alento;

acordar não me traz de volta à realidade;

viver me parece pouco, muito pouco.



Voo tão alto que me perco entre os mundos.

Tenho pena da minha vontade.

As palavras saem pelos meus poros,

luto para entendê-las e resgatá-las...

E sou dominada pela ânsia de dar a elas alguma forma.



Talvez tenha perdido o senso.

Preciso colocar para fora aquilo que me consome;

transformar em história tudo o que imagino;

ver além daquilo que enxergo;

encontrar o limite do verbo.



Não sou capaz de respirar de outra maneira.

O dia começa e termina em uma frase.

As ideias, frenéticas, dançam como loucas.

A inspiração cutuca a minha alma...

Derramar-me sobre o papel é o meu desatino.




Elaine Elesbão

Hoje é Tarde, Já me Fui Deitar. de Carolina Costa




Se alguma vez um estranho se aproximar e te perguntar se já alguém gostou verdadeiramente de ti podes levantar a cabeça e responder, sem qualquer tipo de dúvida ou receio, que sim.

Que já gostaram mesmo de ti.

Que já gostei mesmo de ti.

Gostei, de ti. Aproveita e diz também que não foste capaz de me segurar.

Que permitiste que o tempo me levasse sem sequer teres tido coragem de puxar da tua espada para tentar defender a tua honra, a nossa honra.

Deixaste que os ponteiros do relógio varressem o nosso espaço, consumissem o nosso ar.

Não lutaste. Diz-lhe que, provavelmente, deitaste fora uma oportunidade de seres feliz, não para sempre, porque a eternidade é um conceito inexistente no dicionário da minha, da nossa realidade, mas momentaneamente, agora, hoje.

Podes contar a história de como as tuas incertezas e as tuas meias verdades conseguiram esmigalhar em mil pedaços a última réstia de amor que eu sentia por ti. Explica-lhe, com os detalhes que me deves, a forma como arrancaste os meus sonhos de mim.

Como me fizeste desacreditar em todos os XY que fui encontrando nas estradas do meu caminho. Mostra-lhe como já me fizeste desejar nunca te ter conhecido. Como me roubaste o coração para o usares como abrigo das tuas idas e vindas.

Como o gastaste, secaste. E sim, não te esqueças de mencionar as tuas idas e vindas.

Conta-lhe como me tomaste como garantida. Não prestaste atenção enquanto fui dando passos em frente, pequeninos, mas tantos que se tornaram enormes.

Foste tu quem deixou que assim fosse.
Também não notaste enquanto fui olhando para os lados para não ser atropelada novamente pelos teus homónimos, homógrafos, homófonos.

Por todos aqueles que tal como tu não sabem saborear a certeza do momento. Não reparaste enquanto fui fechando as portas, as janelas, os postigos e todos os buraquinhos que te permitiam voltar sempre que querias.

Não viste, ou não quiseste ver.
Não lutaste, ou não quiseste lutar.
Não te impuseste, não te esforçaste, não (me) quiseste.

Vai e conta-lhe, quando acabares vem-me dizer como correu. Mas hoje não, é tarde e eu já me fui deitar.



Carolina Costa

Noite Alba, de Gisela Pereira



















A noite vai longa, o caminho é curto, o desejo imenso...e no labirinto de ruas nos perdemos, subimos e descemos, fomos até ao infinito...era já ali!

O rio é nosso confidente e a lua no céu, cheia de vergonha, esconde-se dos nossos gestos, por detrás de nuvens cheias de lágrimas que descem silenciosamente sobre nós...

Na noite fria e alba, na escuridão nos encontramos...e a surpresa apareceu no toque delicado dos nossos lábios...no cumprir de uma promessa feita...hoje seria a nossa noite.

Combatemos contra-tempos, desmembramos rotinas, desconstruímos as brumas que nos rodeiam os movimentos...discutimos os olhos que nos vigiam nas sombras, perseguimos os medos que as nossas mentes criam para nos enganar...

No toque nos perdemos nas horas...e como um perfume raro, nas minhas mãos teimaste em ficar...andamos desconhecidos de nós, escondidos na sombra, como crianças travessas a brincar ao faz-de-conta, fugidos da vida real...

Gisela Pereira

Dia de vida de Tiago Lima



Dia de vida

Um dia diferente

Num meio à parte
Onde poucos carros passam
Sem haver um pensamento igual
Ao contrário de todos os outros

Saber ao certo o tal significado
Para tal coisa mesmo só percorrendo
Metade do percurso
Inserido nesta estrada que iniciamos

Momentos e bocados fáceis ou difíceis
Pelo normal sentimento das coisas
Imprevisto no seu próprio ser
Na plenitude de situações que divergem
Por vários ramos sem fim

Em busca de um lugar que cada um
Procura achar sem sequer ver o sinal
Que outrora era visível aos olhos de alguns
Que por pura sorte o viram

E conseguirão secalhar lá chegar
Um dia quem sabe
Por muitos dias que passam
Se descobre a total aventura que a vida nos impute pelo seu próprio
Infinito de coisas diferentes





Tiago Lima

Sei que às vezes ris - bastante de Carlos Marcelino

Sei que às vezes ris - bastante


Mas nem sempre a vontade que está por fora é igual ao que se sente por dentro. Mas sei que ris, muito. E que tentas matar a tristeza com um sorriso. Acho que é assim que se matam as tristezas, com sorrisos. É isso que vejo em ti: um sorriso gigante por fora que amedronta a tristeza que vai por dentro, e é isso que faz sentido: em vez de nos deixarmos amedrontar com as tristezas, em vez de nos deixarmos cair, sorrimos. Às vezes mesmo por entre lágrimas sorrimos, e elas, com medo, vão-se embora (ou pelo menos afastam-se o suficiente para nos deixar sorrir).

As lágrimas têm um poder de lavagem da alma, penso que seja para isso que servem, saltam fora de nós para lavar o que nos entristece.

As lágrimas também dão alento, reconheço-lhes esse valor, dão força para o passo seguinte, às vezes só depois de chorarmos é que as luzes da vida se alumiam para vermos por onde temos de ir.

Quantas batalhas não se ganharam depois de um choro? Quantas forças não se reuniram depois de derramadas lágrimas? Quantos caminhos não se desvendaram depois de enxugarmos as lágrimas que nos cobriam os olhos? Quantas mães não fizeram das suas lágrimas forças para que o mundo continue a avançar? Como conheceríamos a bonança se não houvesse tempestade? Primeiro tudo revolto, e, depois a bonança, a calmaria, que nos deixa ver para onde vamos.
Deus não iria criar as lágrimas só para nos fazer tristes, se ele as criou foi para algo mais do que viver tristezas.

Afinal também existe felicidade no meio das lágrimas, não é verdade?

Chorar faz bem quando chorar faz falta.

Sei que às vezes ris - bastante. Mas também sei que choras - quando precisas.

Carlos Marcelino

Em Lisboa de André Borges

Em Lisboa


Às quinze horas, numa Terça-Feira de Verão, estavam duas pessoas à janela de um prédio alto perto do largo Marques de Pombal, em Lisboa. Uma delas dizia à outra que tudo estava a acontecer ao mesmo tempo, olhando o movimento no largo com uma expressão vaga, ao que a outra respondia que nada estava acontecendo. Uma pomba, vindo a esvoaçar de um sítio incerto pousa num poste ali perto e larga uma caganita que vai aterrar em cheio no blazer de um homem de negócios que passa lá em baixo, na rua. "Vês", diz uma das pessoas, à janela, reparando naquela situação, "tudo está a acontecer ao mesmo tempo!", com um ar iluminado na cara. "Não", responde a outra que também tinha reparado no que sucedera, "aquilo não é nada!!", "acontece a toda a hora em Lisboa...!". Aborrecida, a outra, faz um ar franzino para o ar e olha para o outro lado. "Nada está acontecendo...", "que tédio...". Tudo estava a acontecer ao mesmo tempo e nada estava acontecendo. As pessoas à janela eram uma´e a mesma mas uma decide retirar-se para dentro para preparar um chá de camomila para beberem à mesa enquanto a outra se deixa ficar à janela, naquela tarde solarenga, a olhar o movimento do largo. "O chá está pronto!". Ninguém ouve nada. Os carros continuam a contornar a rotunda, os pombos continuam ora a voar ora a empoleirar-se em objectos aleatórios e uma voz dentro da cabeça da pessoa parece dizer, num tom de neblina: o chá está pronto!
Nisto a pessoa à janela olha para a sala de estar e vê-se a si mesma ali sentada à espera de que o chá arrefeça para se servir. É então que repara que há duas chávenas, dois pires e duas colheres na mesa. Pergunta-se por quem esperará ela visto estar sozinha em casa desde manhã. Mas, ao perguntar-se isto, nenhuma voz se ouve dentro da sua cabeça. Pergunta-se isto apenas com os sentidos e sente-se feliz, naquela Terça-Feira de Verão porque tudo está a acontecer ao mesmo tempo e nada está acontecendo.

André Borges

O Aeroporto, de Joaquim Taborda















Os olhos da menina, de tão escuros e arregalados, pareciam duas pérolas negras nervosas. 
Com a mão dada à mãe e encostando-se à sua perna, não fosse perder a sua referência, olhava tudo e todos sem entender o que se passava. 
Só via gente que não conhecia, nem queria conhecer, num movimento constante, de quem vai sem vir. Gente com ar nervoso e ausente. Gente que disfarçava ser gente. 

Lá em casa a mãe tinha preenchido os dias com lágrimas e sorrisos, dizendo-lhe que o pai ia. 
A menina sempre pensou que o pai ia todos os dias. Assim como voltava todos os dias. 
Agora, naquele edifício onde nunca estivera, preferia ter ido ao sealife, só via gente que chorava ou que ria. Uns novos e outros velhos. Mas todos de malas e sacos. 
O pai fazia-lhe tantas caricias, que o aeroporto até lhe parecia quase melhor que o sealife. Pegava-lhe ao colo e abraçava-a, para a pousar de seguida e virar a cara, inspirando e enchendo até metade dos pulmões. 
A mãe tinha a mão suada, mas não a largava mesmo quando abraçava o pai com ternura. 

- Vai correr tudo bem. Coragem. Vai correr tudo bem. 

A menina não se lembrava, na sua tão pequena memória, de os ver tão amigos, como neste últimos dias. Ela andava muito contente. Depois de um tempo em que o pai tinha andado nervoso, impaciente e a falar mal do patrão e de todos, até dos senhores que aparecem na televisão, o pai voltou a dar muitos abraços à mãe. 
Estavam a ser uns dias muito bons. Deixara o colégio, onde almoçava, e passou a frequentar uma escola onde a mãe a ia buscar para almoçar. Os olhos, tão negros, tremiam pelo espanto de não entender o que se estava a passar naquele momento e naquele local. Os pais olhavam-se entre si e derramavam-se nela. 

A mão grande, enorme, do pai deslizava da face da mãe e pousava delicadamente na sua face. 
Naqueles olhos grandes arregalados começou a cintilar um brilho de receio. 
De repente ficou um pouco temerata. 
Apertou-se mais na mãe. Olhava para cima do alto dos seus cinco anos. 
O pai, ajoelhou, e deu-lhe um beijo e um abraço. Disse-lhe ao ouvido: - Volto já. Obedece à tua mãe minha princesa.

Levantou-se, beijou a mãe e dirigiu-se a uma porta onde mostrou um bilhete a um senhor. 

- Mãe, onde vai o pai ? 
- Já te disse querida, vai trabalhar. Só que num lugar longe e tem que ir de avião. 
- E ele ... 
- Agora não filha, vamos para casa, que dói a cabeça à mãe. 
- Porquê ? 
- Oh filha querida, sei lá... Tantos sonhos !! 

Apertou a mão da mãe e sentiu cair uma lágrima como se fosse 
começar a chover. Ali dentro do aeroporto. 
Afinal eles não sabiam que o sonho (não) comandava a vida.


Joaquim Taborda