A Mão Esquerda, de Francisco de Sousa Vinagre



Dei curtos passos pela Rua do Quelhas, não conseguia respirar. Parei e pousei os sacos. Os raios de Sol assombravam a minha cara e senti-me perto do Inferno, apeteceu-me morrer. Pousei os sacos. A dor que vinha das minhas mãos obrigava-me a pensar em como estava tão velha. Senti picadas na coluna. Pousei os sacos. Achei que me estavam a espetar agulhas nas pontas dos dedos, as minhas mãos ardiam.

Cumprimentei o Sr. Abílio, lembrei-me da mulher dele. Apeteceu-me morrer, as minhas mãos ardiam. Inspirei. Voltei a inspirar e pensei no meu Julinho. Olhei para as mãos, sentia-as a arder. Reparei nas linhas da vida que percorriam a minha palma da mão esquerda. Fixei-me na aliança. Tentei respirar, senti o meu peito apertado contra uma parede. Voltei a agarrar nos sacos, um a um. Eram mais pesados que os meus netos, senti que levava tijolos para casa. As minhas mãos não queriam fechar, voltaram a arder. Caminhei mais alguns metros. Olhei para baixo, fixei-me nos espaços vazios existentes na calçada, quis morrer. Pensei no meu Julinho.

Reparei nos meus pés, estava de sandálias. Eram feios, as unhas estavam da cor do carvão. Os meus pulmões, de repente, diziam que não aguentavam mais. Parei. Pensei no meu Julinho, olhei em frente. Inspirei. Pousei os sacos. As minhas mãos ardiam, quis morrer.



O meu prédio estava já ali, o número sete. Tentei regularizar a respiração, continuei a sentir facas espetadas no peito. Olhei para os sacos, apeteceu-me pontapeá-los. Lembrei-me dos ovos, não o fiz. Olhei para a aliança, inspirei. Parei. Inspirei outra vez, o ar parecia-me coberto de vidros que me atravessavam a garganta. Quis morrer. Voltei a inspirar. Peguei nos três sacos, dois na mão direita e um na mão esquerda. As minhas mãos ardiam, pareciam queimadas. Caminhei. Pensei no meu Julinho.

Sabia que o prédio estava mais perto, mas não o senti. O meu peito inflamava como um incêndio, as mãos ardiam. Parei.

Larguei os sacos em frente ao meu prédio, lembrei-me dos ovos. Tirei as chaves do bolso, o barulho do metal fez-me sorrir. Sorri. Abri a porta do prédio, as escadas olharam-me com um olhar ameaçador. Quis morrer. As mãos ardiam. O meu peito continuava apertado. Pensei no meu Julinho.

Sabia que me esperavam vinte e quatro degraus pela frente, um terço da minha idade. Já tinha enfrentado aqueles pedaços de madeira milhares de vezes, mas aquele dia parecia diferente. Parei. Pousei os sacos, olhei para a aliança. As mãos não queriam fechar, viam-se as veias. Inspirei, agarrei nos carregados pedaços de plástico e pus o meu pé esquerdo no primeiro degrau. Olhei para baixo, tentei-me apoiar no corrimão de metal que percorria a escada. Senti-me velha. Quis morrer. Pensei no meu Julinho. Pus o pé direito, agarrei nos sacos, apoiei-me no corrimão, olhei para a aliança, e subi. Degrau a degrau, subi. Parei. Pousei os sacos. As mãos ardiam, estavam em sangue. Cuspi para as mãos, passei a minha saliva pelas feridas. Tentei respirar, o meu peito queimava, as facas não queriam sair. Apoiei-me no corrimão, queria respirar. Inspirei. Parei. Olhei para os sacos, vi os ovos. Toquei no corrimão com a mão esquerda, vi a aliança. Senti os relevos do metal, fiquei com um odor estranho nas mãos, lembrei-me das feridas. Parei. Gostei do cheiro a metal, lembrei-me do meu Julinho. O número de degraus daquela escada correspondia a um terço da minha idade, estava velha. Acho que quis morrer. Olhei para os sacos, faltava um andar. Agarrei nos sacos, dois na mão esquerda e um na mão direita. Pus o pé esquerdo à frente, apoiei-me no corrimão. Subi. Inspirei. Olhei para a aliança. Pensei no meu Julinho. As mãos ardiam. As unhas, cobertas de terra, continuavam com agulhas espetadas. Subi os degraus. Parei.



A minha fechadura estava amarelada, tinha perdido a cor. A porta já não era castanha. Faltavam bocados de madeira, o que lhe dava um novo aspecto. Tirei as chaves do bolso, olhei para os meus pés. Estavam com feridas. O barulho das chaves fez-me sorrir. Parei. A minha respiração estava melhor, os pulmões começavam-me a perdoar. As mãos ardiam.



Abri a porta, limpei os pés. Peguei nos sacos. Parei. O hall de entrada lembrou-me do meu Julinho. Pensei no meu Julinho, quis morrer. Pousei os sacos na cozinha, a loiça estava por lavar. As mãos continuavam a arder, passei-as por água. Saí da cozinha, passei pelo hall de entrada outra vez. Olhei para o quadro que lá tinha pendurado. JL era a assinatura. Parei, toquei no quadro. Senti-o, cheirei-o. Acho que me cheirou a tinta fresca, quis morrer. Inspirei. Fui para a sala. Parei. Olhei para o sofá, estava vazio, o meu Julinho já lá não estava. O silêncio começou-me a perturbar. Não conseguia ouvir o rádio ligado, não percebi porquê. A mesa não tinha um único jornal desportivo. Olhei para o sofá, estava vazio. Sentei-me, pensei no meu Julinho. Acho que quis morrer. As mãos ardiam, juntei-as. Apertei-as com a força equivalente a um comboio de mercadorias. Tive dor, não percebi de onde. As mãos ardiam, os pulmões reclamavam, a respiração custava. As costas ardiam, as pernas estavam cansadas. Os pés tinham feridas, a cabeça estava suada. Senti-me velha, quis morrer. Pensei no meu Julinho, olhei para a minha mão esquerda à procura da aliança, ainda lá estava. Fechei os olhos, adormeci.


Francisco de Sousa Vinagre

3 comments:

elizabeth teixeira said...

Comovente a força e amor de uma Mulher. De volta ao começo.
Lembrei das mulheres de minha família. Saudades de algumas Marias.
Parabéns Francisco Vinagre. Sucesso.

elizabeth teixeira said...

Comovente a força e amor de uma Mulher. De volta ao começo.
Lembrei das mulheres de minha família. Saudades de algumas Marias.
Parabéns Francisco Vinagre. Sucesso.

Ricardo Almeida said...

Intenso! Parabéns Francisco