Teus Medos de Aderson Ulrico


Teus Medos 

Desnudei minh’alma aos teus pés,
Fiz de teu nome, a minha oração, 
Sonhei acordado, dias e noites
Com teus carinhos... Carinhos, que nunca recebi.
Só agora vejo de que nada valeram.
As minhas loucas fantasias
Dependuradas no varal da esperança,
Onde foram todas destruídas 
Pelo vendaval da indiferença, 
Que sopraste em resposta 
Ao amor que eu te ofertava... 
Nem disseste sim e nem disseste não 
Simplesmente, levantaste uma muralha 
Em torno de ti... 
E lá ficaste com teus medos
Tuas tristezas e tuas mágoas. 
E eu, que só queria, na simplicidade do amor
Oferecer-te meu coração.
Mas tu ficaste confusa 
Sem saber se o aceitava ou se o recusava... 
Foste então em busca da razão, 
Razão, que no contexto do amor 
É inversamente proporcional, a coisa nenhuma... 
Portanto, restou para mim 
Somente o caminho do esquecimento 
O qual, passa ao largo da cidade 
Em que vives...
Cidade esta, chamada Solidão.




Aderson Ulrico

VAI, VEM de Eugénio Mourão


Vai!
Nada é o que sonhamos, é assim,
A vida nunca tem um endereço,
Mas tudo é o que em nós mora.


Vem!
E que esta nua paz de voltar,
Não seja por ódio de começo,
Mas por um querer sem ter fim.

Vai!
Não há no mundo outra crença,
Porque tudo vale sempre a pena,
Mesmo por aquilo que não foi.

Vem!
E o que magoa não te vença,
Por dar de ti o que não recebes,
Curas com amor a indiferença.

Vai!
Um dia, que a tua lembrança,
Desperte ao mundo a saudade,
Com duas lágrimas de criança.

Vem!
Nada é um estranho acaso,
Há em tudo uma razão de ir,
Mas no coração, fica sempre.

Eugénio Mourão.

Se o mundo fosse cego... de Cristiana Oliveira Gomes.


















Se o mundo fosse cego, provavelmente, seria colorido... o mundo. Continuaria com as suas cores... o mundo. Nós é que o veríamos mais escuro. Talvez sem cor. Ou talvez não. Talvez uns imaginassem tudo. Outros, quase todos, limitaram-se a não ver nada.

Se o mundo fosse cego desfrutaria dos cinco sentidos. Olfato, tato, audição, paladar, visão. Se eu fosse cega...cheiraria o mais intenso dos perfumes, sentiria o gosto da água, tocava a mais leve das penas e ouviria a mais breve melodia daquele pássaro ao amanhecer do dia.

Se o mundo fosse cego não veria o outro para sentir ódio, não veria o outro para sentir inveja, não veria o outro para desprezar, não veria o outro para manipular, não veria o outro, não veria, não veria.

Se o mundo fosse cego seria mais esforçado. Esforçaria-se para sentir, para ouvir, para conhecer, para não se perder.

Se o mundo fosse cego não acenderia a lâmpada à noite inutilmente. Limitaria-se a percorrer o caminho que já conhece mas que teimamos em não arriscar.

Se o mundo fosse cego arriscaria, sempre na iminência de algo poder correr mal, mas arriscaria. Não haveria outra solução.

Se o mundo fosse cego não escreveria prosa, mas sim poesia; não olhava o mar, mas sim o oceano; claramente não via, mas via claro se preciso fosse.

Se o mundo fosse cego, ai se o mundo cego!


Cristiana Oliveira Gomes.

O que eu seria capaz de fazer por Amor? de Helena Ferreira.


Atendendo aos conhecimentos de Charlotte, o que eu faria era munir-me do máximo de "ferramentas" e preparar-me a mim e à minha filha para a passagem. Alimentaria a minha alma, e aproveitava para viver ao máximo tudo de bom, que o tempo que restava nos permitisse. Iria eu apoiá-la e confortá-la sob qualquer condição. Estaria eu incondicionalmente disponível para a minha filha, tudo o resto ficaria para depois, ela é que me teria a 100%.




Referência: Passatempo "Um Portal para a Escuridão".

Dança-me! de Dina Matias



Dança comigo ao luar
Enlaça a minha cintura
Assim, com muita doçura
Faz o meu corpo deslizar

Num rodopio constante
Aperta-me com firmeza
Deixa que eu tenha a certeza
De ser tua, nesse instante!

Dança, numa dança infinda
Tu e eu, sensualidade
Noite, paixão, liberdade
Abraça-me…É cedo ainda.



Dança, mata este desejo
Quero em teus braços bailar
Cala-me a boca com um beijo
Dança comigo, ao luar!


Dina Matias

Reflexão. de Anónimo.



"Observo o meu reflexo com olhos aguados e inexpressivos. É um terrível clichê dizer isto, mas não o reconheço. É como se não pertencesse a mim, nem a este lugar, nem a este tempo.

E no entanto, faz todo o sentido que pertença. Os olhos nadam em pálpebras flácidas e olheiras profundas, as maçãs do rosto salientes como facas, as bochechas encovadas, como se as puxassem para dentro. Indícios de suor na testa, manchas nos lábios onde o filtro de uma infinidade de cigarros se encaixou.

Consigo ver ali, na posição daquelas sobrancelhas excessivamente grandes, todo um medo primordial. Mas é no brilho daqueles olhos castanhos que a dúvida se mostra, corrosiva, dolorosa, um presságio de longos dias esgotados na inércia do pânico. São pequenas fendas, pequenas seteiras, aberturas minúsculas para toda esta grande confusão.

Sei que são truques de ilusionismo. Pergunto-me, mesmo assim, se não devia sentar-me e conversar um pouco com este reflexo. Acho que começaria por perguntar: "Então, diz-me, como foi que viemos parar aqui?". Depois, encostava-me na cadeira e ouvia pacientemente.

Mas enfim, isso seria impensável. Prefiro vaguear por aí, sem rumo, sem plano, sem expectativas, do que perguntar a um total estranho sobre mim."


Anónimo.

Madrugada Azul, de Dina Matias
















Quero lá saber!
Quero lá saber quem fui
O que fiz, o que vivi!
Se fui rosa, se fui espinho
Se fui água, se fui vinho
Que me importa, se sofri!?

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Quero lá saber da vida!
Dum fado escrito, sem fim...
Tão negro, desafinado
Que até chega a ser pecado
Mas, que me importa isso, a mim!?

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Quero lá saber de glórias
De torturas, de prisões!
Se me cerraram a boca
Se me chamaram de louca
Que importam as emoções!?

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Quero lá saber de mim!
Se fico, ou se me vou!
Se sou plebeia, ou rainha
Se fui tua, se sou minha
Que importa, se alguém me amou!?

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Quero lá saber quem sou!
Donde venho, ou onde vou...
Se esta sina, este meu fado
Se encontra em mim tatuado
Quero lá saber quem sou!?

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Dina Matias

Marca Página de Tayline Ange




Rompi a brecha que existia entre nosso abraço

Gosto de te sentir na pele

Reconhecer em ti o cheiro que há tempos só sentia naquele livro

Nas páginas latentes e flamejantes

Nas palavras vibrantes e quentes

Onde guardaste tuas digitais cuidadosamente como um mapa.

Percorri o espaço entre um suspiro e outro

Já fui mais suave, precisei da fúria pra poder te alcançar

Eu te busco e te guardo, marco o texto, sublinho

Como se fosse esquecer os versos que fizemos em nossos travesseiros

Mas não esqueço em noite alguma

E são eles que me acordam como despertadores desafinados logo que o sol aponta

É o último capítulo, amor

E eu te dispo de toda resistência.





Tayline Angel

Debaixo d'água, de Hugo Ricardo.



Corro por estas quatro paredes que não me levam a lado nenhum, excepto ao pesado silêncio do mar, cujas ondas me engolem. Aqui não passo de um fantasma, espectro de uma rosa, sombra de uma sanidade senil.

Deixa que a maré me lavre a alma e arraste consigo incertezas de uma altura que perdemos no tempo. Vira-me as costas e deixa-me ficar no mar, onde não te atreverás a procurar-me. Pois o mar que eu tanto conheço está repleto de caminhos incertos. Caminhos esses que apenas eu consigo percorrer e nos quais apenas eu me posso perder.

Enquanto me aprisiono na minha nebulosa omnisciência, vou respirando debaixo de água, onde deixarei o teu nome marcado para nunca mais o esquecer.


Hugo Ricardo

SONHEI…, de Eugénio Mourão.


















Sonhei …
Que a vida era bonita,
Que o mundo tinha sido feito a sorrir,
E as lágrimas eram a água doce,
Que descia dos montes.

Sonhei…
Que todos os sonhos podiam ser,
Que eram a coisa mais simples do mundo,
Bastava fechar os olhos e desejar,
E que ninguém nos ralhava por isso.

Sonhei …
Que os homens inventaram a saudade,
Para não esquecerem,
E que a dor só aparecia quando caíamos,
E que passava com o tempo.

Sonhei …
Que se podia fixar o sol sem chorar,
E que o céu era já ali em cima,
E que quando se olhava uma estrela,
Se podia ficar com ela.

Sonhei …
Que as palavras a sonhar falavam alto ,
E que chamavam por mim,
E quando acordava, havia alguém
A ler o meu poema.

Sonhei …
Que eras um sonho lindo,
E sonhava contigo até não aguentar mais,
E quando ficava cansado, adormecia,
Para voltar a sonhar-te.

Sonhei…
Que tínhamos o mesmo sonho,
E que era mesmo de verdade.



Eugénio Mourão.

Apenas café, Bruno Alves da Silva.















Ah! Aquele gole delicioso de café que me incendia o corpo e a alma, assim como o seu beijo, às vezes amargo, mas o meu café ajustava isso com o seu delicado, doce e toque de amor. Corri tanto atrás de você, criei tantas rimas e só agora que ele te largou, tu me procuraste. Que desperdício!

Até dói te ignorar, censurar-me em um típico “oi”, mas não cometerei os erros do passado novamente, apenas tomarei o meu café, olharei pela minha janela, suspirarei profundamente e por fim esquecerei.


Bruno Alves da Silva

Homenagem a Ela, de Lorrayne Johanson.





















Ah, moça calma e singela,

Por que se vela

Tão secreta

Nesta ilha vasta e bela

E não me revela

O que escondes além da procela?



[Lorrayne Johanson – Garrafinha]

Rotina, de Helena Rita.

Começa a ser rotina não te ver com os mesmos olhos… Num passado recente, podíamos até andar aos encontrões que não sentia a tua presença no espaço. Agora sinto a tua respiração a longas distâncias. É como se tivesse entrado em metamorfose, o meu estômago encheu-se de borboletas, recebi o seu olfato só para seguir o teu perfume que me atordoa; deixei a escuridão para encher o meu pequeno coração de algo, como se chama? Sim, amor.

Ainda não sei como lidar com isto, é demasiado fresco. As pernas fraquejam, tenho pequenos ataques cardíacos, o sangue percorre-me com tal lentidão que me sinto a perder os sentidos. A tua acelerada respiração complementa o meu dia-à-dia; não sei como, mas conseguiste arranjar espaço na caixinha que me mantém viva e, que à tua passagem permanece junto à boca. Mas sabes que significa? É um sinal de que quer exprimir os sentimentos existentes nela e apreendidos a sete chaves por mim. Eu continuo a mesma. Nada muda, a não ser este sentimento reprimido e oprimido, mas sensacional.

Por mais estranho que pareça, sejam dez ou duzentos metros que nos separam, o teu sorriso é contagiante; e o teu bom dia, por mais insignificante que seja para ti, consegue deixar-me a sorrir durante longas e demoradas horas. Permaneces vinte e quatro sobre vinte e quatro horas na minha imaginação. Em estilo de confidência, nos meus sonhos já somos casados e temos uma filha linda. Sabes o quanto esse mundo, a dois passos do real contribui para a minha felicidade? Pois, mas é a ideia de que todos os sonhos se podem tornar realidade, o que me faz andar de cabeça erguida.

Espero que um dia me compreendas.

Pertences-me, desconhecido.


Helena Rita

Calor de Chuva de Mara Vanessa Torres



Calor de Chuva



Partículas de poeira dançam e rodopiam

Acima dos homens e de uma cidade que grita

Os pequenos fragmentos de poeira são embalados

Pelo sibilar do vento, pelas gotas de chuva

Gotas de um céu que ri, chora, ama, fere

Na terra dos homens, o calor que oprime

O mormaço que abafa, esconde e sopra para longe

As partículas de poeira que circulam e rodopiam

Voam e anunciam

Que nesse calor de chuva

São as nossas sensações

Os nossos corações

As nossas emoções

Os nossos sentidos

E nada mais para usar, ser ou mostrar

Nesse calor de chuva

As partículas de poeira dançam como borboletas

Flutuando no espaço

De uma cidade vazia e cheia



De calor e chuva.

                                                                           Mara Vanessa Torres


Pintemos o amor, de Túlio Santos







O que há em mim é uma tristeza desbotada, que insiste em tingir
de todos os tons possíveis, esse meu caos de solidão e tristeza
que só evoca você.

A hora de amar é agora.
Preparei todas as aguarelas possíveis
e já estou com o pincel na mão.
Pincelar amor, pode ser uma excelente distração, ou cura.



Túlio Santos

A Escrita, Marta Garcia

















A escrita é o meu instrumento,
Sem que eu o possa controlar,
Epifania do momento,
As palavras são o meu pensar.

Penso, logo escrevo,
Não consigo parar,
Letras da minha alma,
Não é nenhum segredo.

É um frenesim e uma calma,
Que corre nas minhas veias,
Louco e ponderado,
Sem limites e inspirado,
Numa espiral estonteante,
Até nenhum pensamento restar.

Mas aí durmo,
E penso novamente,
E recomeça de novo.
Este ciclo sem terminar.



Marta Garcia

Estas saudades de mim, de Maria Laranja



Qualquer dia acabo com isto das saudades, ficam lá bem guardadinhas no sótão, dentro daquela caixa de cartão que nunca ninguém abre, que é para ver se fica mais fácil viver estes dias que gelam a palma das mãos, a ponta dos dedos e parte do coração. Qualquer dia acabo com isto das saudades, ponho-as a fazer ruas onde as pessoas vão passar e sentir uma coisa estranha, mas não vão saber o que é porque calçadas de emoções só existem na minha cabeça. Qualquer dia acabo com isto das saudades e transformo-as em água a correr para longe, rio de angústias que vá morrer noutra foz. Quando esse dia chegar vai ser bom porque passa a ser possível lembrar, verbo que faz aparecer logo pronto e rápido aquele buraco no meio do peito que é o lugar onde as saudades se instalaram, e assim que podem abrem a porta e deixam entrar frio. Quando este dia chegar vou poder abrir a gaveta sem medo dos olhares dos dias passados, do cheiro do jardim de mil flores, tomateiros e alfaces. Um dia acabo com isto das saudades e vingo-me no regresso à minha rua de toda a vida e à minha casa cheia de mim e de nós, que vou desatar todos, um por um, desde os dias da escola da dona rosinha até ao muro de pedra sobre o fio de água a que pomposamente chamávamos ribeiro. Um dia zango-me mesmo a sério e volto a casa para cheirar as paredes e dar mais um passo no chão gasto, olhar e ver sem medo que a maior parte de mim ainda ali está. Volto para somar sentires aos milhões que já senti.

Qualquer dia acabo com isto das saudades, mas um amigo disse-me para deixar estar, que é isso que nos faz gente. Será?





Maria Laranja

Nascer do Sol na minha Aldeia, de Maria Santos.



















Quanto mais subo, mais a estrada fica vazia,
Quero chegar antes do romper do dia,
O caminho cada vez mais estreito e ainda escuro,
Oscila o pensamento entre claro e obscuro.

Piso pedras, folhas e arbustos,
Escorrego em troncos descascados de sobreiros robustos,
Sinto a carícia de um ramo selvagem,
Chego ao fim da viagem.

No cimo da montanha,
Oiço um silêncio pulsar,
O que sinto não é uma ausência,
Mas uma presença,
A terra a respirar.

Uma energia, um movimento,
Algo de muito lento,
Quase violento,
Prestes a desmoronar.

Não digas nada, sente
O sol ergue-se ali, à tua frente
Astro gigantesco em combustão
Átomo que escapou do universo
E que a minha mão
Transformou em verso.


Maria Santos, Luxemburgo
Julho 2014