DO LIVRO DE PERPÉTUA ROSA de Maria Laranja



DO LIVRO DE PERPÉTUA ROSA




A cidade está feia e as ruas vazias de cor. Perpétua Rosa procura alguma coisa familiar, pode ser um nome, um gesto, um cheiro ou uma esquina, mas passaram tantos anos que a esperança de poder rever-se naquela terra sua de corpo e de alma se escoa pela sombra da cidade gasta. É a primeira vez que regressa, há um terramoto dentro dela, o corpo treme-lhe todo e a boca sabe-lhe a sal. Só não sabe se pela maresia do ar ou se pelo passado que lhe corre dos olhos molhados.

Viajou no tempo até ao dia em que o conheceu. Dobrava a esquina, apressada e de gargalhada solta. A vida era fácil, bonita como um dia de sol, intensa como uma maré viva, eterna como uma noite de Verão. A poucos metros lá estava ele, cigarro na boca, chapéu na cabeça, olhar malandro. Teriam bastado apenas meia dúzia de passos e ela entraria como sempre na pacatez da sua casa, livre de todos os perigos. Mas o mundo parou, e o pó do caminho ficou suspenso para sempre porque presente e futuro se encontraram naquele dia num corpo de mulher e num cheiro de homem. Bastou-lhe abrir a boca e deixar sair a voz, um tamborilar de palavras sabidas num tom ritmado, para a prender numa cadeia se sentires de onde ela nunca mais soube sair. Por isso Perpétua Rosa viajou com ele para longe, num comboio que a levou para lá da montanha, onde quem a esperava era gente de alma gasta. De súbito a felicidade dos primeiros dias foi-se como um papel pouco ensaiado, o pano caiu e ela só deu pelo teatro quando se viu pela primeira vez na esquina suja onde passariam tantas horas más da sua vida.

Não se pode fugir à tristeza quando ela se crava no fundo do peito, nem voltar a ser feliz quando à volta nada cheira a casa. Perpétua Rosa depressa aprendeu estas duas lições, por isso não lutou contra elas e deixou-se ficar, a ver-se ao longe, escrevendo todos os dias mais uma linha no seu manual de sobrevivência. Valiam-lhe as horas que passava com ele, a brincar ao amor e a fazer de conta que as palavras ditas com aquela voz que continuava a atordoá-la eram verdadeiras. Até que chegou um dia em que ele, tão tirano de coração, se tornou tão frágil de corpo que até ela se comoveu. A doença veio depressa, instalou-se para ficar, começou a comeu-lhe a carne e ameaçava todos os dias começar a roer-lhe os ossos. Perpétua Rosa interpretou-a como um sinal, libertador e conveniente, e decidiu partir. Numa noite quente arrumou as suas coisas na mesma mala com que há vinte tinha fugido acreditando na felicidade, e espantou-se por esta ficar tão vazia de coisas e tão cheia de desgostos. Com a bagagem pesada de coisas nenhumas, saiu sem olhar para trás e caminhou um passo decidido até à estação, onde pediu um bilhete só de ida, apostada em reencontra-se. Havia pouco movimento àquela hora e ela sentou-se. Não o devia ter feito, porque adormeceu e dentro dos sonhos apareceram imagens cheias de uma ternura avassaladora e inesperada, tão intensa como o apito do comboio que partiu sem ela.

Perpétua Rosa ficou ao seu lado até não sobrar dele mais do que uns olhos fundos e uma voz estonteante.



Quando por fim se sentiu livre, voltou e reparou que a sua cidade está feia e as ruas vazias de cor. Perpétua Rosa procura alguma coisa familiar, pode ser um nome, um gesto, um cheiro ou uma esquina, mas passaram tantos anos que a esperança de poder rever-se naquela terra sua de corpo e de alma se escoa para a sombra da cidade gasta…



Maria Laranja



1 comment:

Sonia Martins said...

Muito Bom!!!
Que venha mais.