Uma noite sem sono de CAROLINA BESSA DUARTE



Uma noite sem sono



Já era tarde, todas as luzes apagadas. O silêncio era tudo que escutava. Milhares de pensamentos corriam em sua cabeça, um zumbido incomodo. Aquele travesseiro era duro, a posição desconfortável. Virou na cama. Olhou para o tecto. A mente o levou a milhares de quilómetros de distância, lembrou de outro tecto. Lembrou de outra cama, uma mais confortável, mais macia, cheirosa. Aquele cheiro de lavanda que ainda atormentava sua mente. Atormentava seus sonhos, o perseguia no meio da noite. Aquela não era uma noite diferente, havia um fantasma naquele quarto que tirava seu sono. Um belo fantasma com cheiro de lavanda. Virou na cama. Paredes descascando. Era uma casa antiga, uma casa perdida no tempo, esquecida do mundo. As paredes falavam. Levantou. A casa estava escura. Tropeçou. Garganta seca. Cheiro de lavanda. Andou pelo corredor, desceu a escada, entrou na segunda porta. Abriu a geladeira. Suspirou. Precisava ir no mercado. Bebeu toda a água. Tinha uma dor alucinante na cabeça. Escutou o silêncio. A noite parecia cantar. O cheiro de lavanda ainda o perseguia. Fechou os olhos e sentou-se na mesa da cozinha. A casa fedia a animal morto, talvez devesse olhar no porão no dia seguinte. Provavelmente encontraria um gambá apodrecendo. A casa estava desocupada há anos. Ainda não sabia o que fazia ali, com as telhas caindo, os rangidos do piso, as teias de aranha. Talvez devesse procurar outro lugar pra ficar, arranjar um flat barato no centro, não deve ser tão difícil. O barulho do silêncio o deixava louco, não gostava de lugares melancólicos, cheios de passado. E aquela casa parecia uma viagem no tempo. Precisava de ar. Foi para a varanda, o cheiro de terra estava em tudo. E o cheiro de chuva lavava o de lavanda. Assim era melhor. A lua banhava seu rosto, nunca havia sido muito fã de banho de sol. O vento balançava as poucas árvores do jardim a tanto abandonado. Começava a clarear o dia, que horas seriam? Sem sono, se perguntou o que fazia ali, sozinho, naquela casa esquecida por todos. Talvez fosse porque se sentia esquecido também, abandonado como os móveis velhos da grande sala de estar. Sentia-se perdido, fora do tempo, longe do cheiro de lavanda que tanto gostava. Ao longe, o som do silêncio era aos poucos substituído pelo barulho da cidade que tinha crescido e mudado, bem diferente daquela casa moribunda. Queria sair dali, correr para onde pudesse encontrar aquela que tinha o cheiro de lavanda. Mas, ao invés disso, entrou na casa novamente, subiu a escada, entrou no quarto e deitou na cama. A mesma cama desconfortável, com o mesmo travesseiro duro. E longe do cheiro de lavanda, dormiu.




CAROLINA BESSA DUARTE

6 comments:

Mirian Bessa said...

Muito bom o texto!! É possível sentir a solidão e a angústia em cada linha!! Parabéns!

Mirian Bessa said...

Muito bom o texto!! É possível sentir a solidão e a angústia em cada linha!! Parabéns!

Mirian Bessa said...

Muito bom o texto!! É possível sentir a solidão e a angústia em cada linha!! Parabéns!

Anonymous said...

É minha sobrinha !!!!! Tio Zé

Anonymous said...

estilo Camus!!!?? Demais,tb senti o vazio... Prima-fã-orgulhosa Andreia Maciel

Alvaro Gaspar said...

Excelente texto. Cada palavra, cada frase transmite um forte sentimento
de angústia, muitas vezes, escondido no cotidiano da vida das pessoas.